Maniqueísmos e infraestrutura

Maniqueísmos e infraestrutura

O maniqueísmo nosso de cada dia

Eis que, não mais que de repente, o brasileiro acorda fazendo filas em postos de gasolina, estocando alimentos e implorando por amalucadas e indecentes soluções para a sua maior e mais recente crise. Para as gerações novas, minha filha inclusa, é uma novidade e tanto. Para os quase quarentões, como eu, um nada delicioso deja vú oitentista, no qual meus sábados eram passados em filas intermináveis de supermercados para meus pais despejarem seus salários em alimentos que poderiam ser trocados depois por outros ou, já nos anos 90, quando atingimos a hiperinflação de 90% ao mês e não existia mais álcool nas bombas. É uma nada bela volta ao passado, que retornará no conceito de maniqueísmo vigente em nossa nação (e nesse texto)

Parece bizarro mas o ônus de viver em um país maniqueísta é ter sempre resposta simples e erradas para problemas amplos e complexos. Maniqueísmo, pra quem não sabe, é resumir todas as questões humanas e existenciais como um conflito dialético intransponível entre o bem e o mal – eles contra nós, nós fizemos – eles não e por aí vai, num dualismo sincrético religioso de fácil percepção por qualquer um que habite essas terras em qualquer período de nossa história. Temos um histórico amplo que pode ser ensinado a muitos países na área – as eleições são sempre doparaíso contra o inferno, as pessoas são 100% ou 0% e essas questões refletem diretamente no funcionamento e cotidiano de nossa sociedade, No ocaso em que vivemos, é a “corrupção”. O “Temer”. Pequenas variações aqui e acolá e as soluções (erradas)  logo pulam à mesa. Dessa bizarrice cresce o sentimento pela intervenção militar, ufanado por mentes tão bobas que não se recordam que este regime criou mais de mil estatais, flertava com o então já ultrapassado nacional desenvolvimentismo e nos legou uma inflação venezuelana de 3 anos atrás.

Mais do mesmo

Tentar explicar para essa manada parece tarefa inútil mas, no fundo, não somos todos? Sem reformas básicas de reestruturação do Estado, sem redução absoluta da máquina pública, sem investimento privado básico em infraestrutura, não só não se tem dinheiro pra nada como ficaremos eternamente na mão do próximo salvador da pátria, a fulanização da figura do herói nacional que, ano sim, ano sim, aparece em nosso país como eterno redentor. Essa imaturidade do maniqueísmo aflora quando não tratamos de questões básicas, racionais e lógicas – escoamento de produção e logística apenas por vias rodoviárias torna o país refém de uma categoria, queiram seus desejos serem considerados justos ou não. A ( oportunista) proposta de desoneração recente de PIS/Cofins equivale a todo orçamento anual do Congresso – esse mesmo que (boa) parte da população deseja ver fechado. Os cálculos de corrupção na Petrobrás são absurdamente menores que a política equivocada intervencionista de Dilma Roussef na empresa, bem como os tarifaços na conta de luz são fruto de reequilíbrio econômico-financeiro gerado pela Medida Provisória 579/2012, não por acaso editada por aquela senhora,  que artificialmente rebaixou em cinqüenta por cento as contas de energia naquele ano curiosamente eleitoral. Todo mundo quer mais educação, mais saúde, mais tudo mas não faz contas básicas de onde essa grana vai sair. É uma esquizofrenia delicada.

Soluções básicas e “complexas”

O raio neste país cai várias vezes no mesmo lugar, como diz Marco Antonio Villa. As soluções imediatas são sempre amargas mas necessárias: reformas do Estado, privatizações, concessões, parcerias público-privadas. Feitas de forma responsável, paramos de enxugar gelo e nos movemos adiante. Para irmos mais além, uma proposta “ousada” – que certamente não será implementada por conta dessa crise: como nossa sociedade parece que não tem a menor noção de como fazer contas num sistema capitalista de economia de mercado, já que aparentam  viver num mundo em que dinheiro estatal nasce em árvore ou é impresso desenfreadamente na Casa da Moeda, sugiro uma reforma básica no ensino fundamental – ensinar noções básicas de educação financeira, responsabilidade com gastos e como funciona o Estado e a economia de mercado. Nada complexo mas inserir nas novas gerações o espírito mínimo que, no futuro, poderá fazer com que não necessitemos explicar que não existe dinheiro “público” e sim dinheiro dos particulares que trabalham e tentam produzir para sustentar essa diverticulite ambulante chamada Estado brasileiro. Quem sabe assim poderemos achar tomadas em paz em 2045 para recarregar nossos carros elétricos.

 

 

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